| Lembro-me do dia em que te encontrei naquela sala. Ao teu lado me sentei. Nunca antes te tinha visto, nada de ti eu sabia, nada de ti eu conhecia. e … Nunca mais de te esqueci. Relembrei-me daquele em que te vi, Sonhando no dia que te voltava a ver, E finalmente te podia conhecer. Foi um sentimento estranho que me apoquentou, Algo que há muito não sentia, Que há muitos anos não vivia Mas que me rejuvenesceu. Uma paixão que nasceu. Como… não sei um sorriso que não recordo um gesto que não retive, Mas é um sentimento com que acordo, Irracional, estranho, que se vive Não sei se tem futuro, ou posso confiar No ciúme dos teus olhos verdes, mortal, Ou nos castanhos que prometem Amar Essa resposta só tu me poderás dar. Se continuo seguro numa vida normal Ou aventuro-me no que a paixão poderá dar. |
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
Sentimento
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sábado, 22 de setembro de 2007
Encontros dez anos depois
Quando encontramos alguém que não víamos à cerca de 10 anos algo de esquisito acontece.
Parece que para as outras pessoas a nossa vida parou e que nada aconteceu desde essa altura. Como que, desde a ultima vez que nós vimos essa pessoa tivéssemos entrado para uma câmara de congelação e só minutos antes tivéssemos saído. Nesta ultima semana fui à minha faculdade solicitar uma certidão de conclusão de curso. Preciso para o novo emprego. E, como bom aluno fui falar com a responsável do gabinete de direito. Sempre foi alguém que muito estimei e que me ajudou como delegado de ano, durante os quatro anos que tive nesta função.
Mas chegou a vida profissional e a distancia foi-nos separando. Só quase dez anos depois é que a voltei a ver. O estranho foi que la veio-me perguntar coisas que já nem sequer me lembrava. Disse que tinha casado e que tinha dois filhos. Perguntou-me se tinha casado com a minha namorada que tinha terminado à cerca de dez anos e que me mandou a baixo. De repente reparei que para aquelas pessoas, por estas perguntas e por outras que foram-me fazendo a minha vida tinha prado no tempo. Disse apenas que não. Nem me atrevi a dizer que já tinha tido 4 namoradas e tinha casado com duas. Obviamente em alturas diferentes e depois de ter divorciado da primeira.
Ficaram espantadas por ter 2 filhos, gémeos. Aí tive de dizer que duas crianças com dois anos consegue-se fazer em muito menos que três anos, quanto mais dez anos.
Penso que muitas vezes estamos tão ligados á nossa vida que esquecemos que a vida dos outros também avança, como diria o poeta, "como bola nas mãos de uma criança".
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Memória selectiva
Quando nos lembramos de coisas passadas de certeza que todos já reparámos que nos lembramos de factos que estão frescos na nossa memória, mas que existem outros que, por alguma rezão, desaparecem.Ao ver os meus filhos crescerem lembrei-me do primeiro dia que fui para a escola. Do que se passou, da professora ter-me recebido, de ter chorado, de ter, inclusivé vomitado. Lembro-me da cara da professora. E, quase, que garanto que se a visse hoje, se for viva, que a reconhecia.Tinha 3 anos. Tive essa professora durante dois anos. Depois, e na mesma escola, fiz a escola primária. Tive a mesma professora durante quatro anos. mas não me lembro da cara dela. Só me lembro que se chamava Maria da Graça, Gracinha para os miúdos.Porque razão nós nos lembramos de umas coisas mas não de outras. Ambos os factos descritos são semelhantes e não existe, pelo menos aparentemente razão para serem vistos pelas células da memória de modo diferente.O mesmo se trata com outras situações. podemos passar imenso tempo sem ver uma pessoa, que mal a vimos sabemos que é. No entanto pessoas que falamos durante muito tempo, se deixarmos de ter contacto, durante um ano ou seis meses, já não nos lembramos delas.Parece que algumas escamas da nossa memória mantêm-se ao longo dos anos, mas outras caem e são substituídas por outras memória novas, fazendo assim, a nossa pele escamosa da nossa vida.
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Amor versus Ódio
Quem de nós não esteve apaixonado?É uma das perguntas que todas as pessoas acima d 18 anos não consegue desmentir.A paixão é algo, penso seu, genético ao ser humano. Todos nós nos apaixonamos um vez n vida. Olhámos par alguém e era, pelo menos, perfeita. Nada de errado tinha na sua fisionomia, gestos, atitudes carácter. Era feita de propósito pra nós. Essa sensação é necessária e obrigatória para nos fazer crescer.Em primeiro lugar, porque a vida tem muito mais interesse se for pensada como um conto de fadas e não como algo cinzento, em vários tons, que la é na realidade.Em segundo lugar, porque é necessário que, num certo dia, percebemos que o objecto do nosso amor, não só não é perfeito, como nem sequer foi feito para nós.Ai, crescemos. Tornamo-nos mais desconfiados e egoístas e um pouco egocêntricos. Crescemos para estarmos mais de acordo com esta sociedades.No entanto, junto deste sentimento chamado paixão existe outro sentimento, muitas vezes que se segue a este - o Ódio.Só quem nunca se divorciou pode desmentir esta verdade absoluta.Muitas vezes nem o sentimento Amor passa pelos sentidos dos sujeitos. Da paixão um dos sujeitos passa para o ódio. São dois sentimentos muito pouco racionais pois o objecto da paixão não é perfeito bem como o objecto do ódio não é totalmente imperfeito.Mas são dois sentimentos que o ser humano precisa para ter alguma paz de espírito, ou sendo mas racional, lago que o cérebro precisa para continuar a funcionar em condições.
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
Paixão(II)
A imagem daquele anjo não me saia da cabeça. Adormecia a pensar nela e acorda com a imagem dela a abrir-me a porta.
Rapidamente comecei a reconhecer os seus paços quando descia as escadas, a sua voz no meio da rua. Mesmo a meio da manhã, no meio pregões das varinas, no barulho das crianças, eu sentia o seu andar, o seu respirar. Algumas vezes falhava, alguém conseguia imitar o andar dela, a sua voz, a sua maneira de descer as escadas. Mas noutras vezes acertava. E ela lá estava.
Ela costumava sair com a avó nas suas compras diárias. Alfama é um bairro muito único. Era normal as pessoas fazerem as compras para o próprio dia. Existiam talhos que abriam de terça a sábado às seis da manhã, fechavam às 16 horas.
Um dos mais conhecidos era o talho do Sr. António – Ti’António para mim. E ele nunca foi meu familiar. É apenas uma das formas de tratar as pessoas por quem tenho grande apreço e respeito. Assim, não se trata essas pessoas num distante “Senhor” ou “Senhora” mas num próximo Tio ou Tia. Dessa maneira quer o sujeito quer o destinatário sabia que aquela relação era especial.
Quanto ao peixe a variedade era imensa. Na rua de S. Pedro existiam, pelo menos 15 varinas que vendiam o seu peixe de terça a sábado. A Rua de S. Pedro era também denominada de Rua do Peixe. O cheiro do peixe tinha-se entranhado nas pedras da calçada. Apesar dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa lavarem a rua diariamente logo após as varinas encerrarem o seu negócio às 15 horas. Mas o bairro cheirava a peixe, o bairro cheirava a mar. Mas não digo isto como critica ou como sinal depreciativo. Foi o Mar, ou a baia calma, designação fenícia que originou a palavra Lisboa, que fez que o povo tenha escolhido Alfama para viver. Há sua frente tinha uma fonte de alimento e dentro do bairro tinha muitas nascentes de água. Assim, tínhamos tudo o que era preciso para um povo se sedentarizar. Não faltava água nem comida.
Saudades de algo que já não volta.
Era normal a D. Manuela vir à rua fazer as suas compras diárias, agora na companhia daquele anjo.
- Olá Carla, como estás?
- Bem e tu?
Depois vinha a conversa do tempo e ficava sem nada para falar. Na realidade eu não precisava de conversa. Só de a ter ao alcance da minha vista.
Dificilmente eu conseguia ter a Carla na rua. Era uma rapariga de casa, não gostava de estar na rua – Não era de Alfama, onde para nós a rua é mais uma assoalhada da casa.
É normal encontrar as portas das casas abertas. Tal situação é devido a uma razão sócio-arquitéctonica ou arquitectónico-sociológica. As casas em Alfama são muito pequenas e com pouca iluminação. Muitas vezes têm divisões interiores e apenas uma ou duas janelas. Deste modo é normal encontrarmos portas de entrada com janelas e portas abertas. Tal situação vem minorar as duas características dos imóveis em Alfama. Com a porta aberta entra mais iluminação natural para dentro de casa e, por outro lado têm-se a impressão que a casa é maior. Como se a casa se alargasse para a rua e para dentro da casa dos vizinho que têm igualmente a porta aberta.
Talvez por esta arquitectura, pelas pessoas ou pela história. Não podemos esquecer que a arquitectura é de origem árabe onde a introspecção familiar e social é rainha onde as casas são constituídas de acordo com a cultura muito particular. Existe em Alfama uma sociedade diferente do resto da cidade. Todas as pessoas do bairro se conhecem. As notícias correm muito depressa. E, por isso, existe entre os habitantes do bairro uma mistura de Amor e Ódio Familiar. As pessoas adoram-se, mas muitas vezes por questões sem a mínima importância, deixam de se falar, chegando a existir confrontos físicos.
Sendo um bairro tão característico tais individualidades do bairro são visíveis durante os meses quentes e pelo frio são mais dificilmente detectáveis no verão.
Mas finalmente chegou o verão.
No verão as ruas do bairro fervilham de vida. As casas passam a ser moradas para comer e para dormir e as ruas como grandes salas de estar. Como se o bairro fosse uma grande casa, como dizia Ary dos Santos, “um casa sem janelas”. Muitas vezes as pessoas de pisos superiores como não pretendem sair e ter de descer as escadas ficam a janela ou nas pequenas varandas. E era nessa sua varanda que a Carla passava grande parte do tempo. Ela adorava ler e de estar sentada de costas viradas para a rua. Na realidade de costas viradas para o bairro. Como se ele não fosse importante para ela. Vivia fechada no seu mundo onde tudo o resto fosse supérfluo. Nunca ele iria perceber mas é esse o espírito reinante em Alfama. O individualismo, considerando tudo o resto supérfluo. Com uma pequena diferença. O bairro considerava isso não para os seus habitantes mas para os visitantes, considerava supérfluo o resto que não fosse de Alfama. Era apenas um pormenor, mas aquele anjo tinha o espírito de Alfama.
Mas o facto de a ver permitia-me ser um pouco mais feliz e fazia-me ganhar coragem para pedir para ela descer. Certo dia, estava a Carla na varanda e a D. Manuela na janela das escadas com a vizinha do lado. Pensei – Porque não?
- D. Manuela a Carla pode descer?
- Pode, se ela quiser.
Vi um pequeno sorriso na cara da Carla.
- Mas vou descer para quê? - Perguntou a Carla.
-É difícil falar com alguém que está a dois andares a cima. Anda, podemos ir dar uma volta ao bairro.
- Eu conheço o bairro. Não me perco - Respondeu a Carla. Mas apesar da resposta negativa vi um leve esgar no seu rosto a solicitar que eu insistisse. Na realidade, talvez não tenha visto nada pois eu sem óculos vejo mal à distância e nessa altura tinha a mania de não os usar para não parecer feio.
Após alguma insistência e tendo a D. Manuela do meu lado, a Carla desceu. Andámos a passear a tarde toda. Foi uma tarde perfeita, estava a passear em Alfama com a mais bonita mulher que alguma vez tinha visto e, desta vez, ela estava a passear comigo. Pois na minha imaginação já tinha feito aquele passeio com ela, Mas hoje é real.
Tornámo-nos bons amigos e para mim era a mulher da minha vida. Quase todos os dias nós estávamos juntos.
No entanto, ela nada sabia ou desconfiava da minha paixão. Parece que é verdade. Segundo o povo em questões de Amor o visado, neste caso a visada, é sempre a ultima a saber. Via-me como um amigo que podia ter num bairro completamente estranho. Eu sonhava no dia em que pela primeira vez ia dizer a alguém que gostava dela, que queria que fosse minha namorada. Em que pudesse terminar a minha historia amorosa com o famoso “e viveram felizes para sempre”.
Não era a primeira vez que eu gostava de uma rapariga, mas sempre fui muito cobarde e nunca tive coragem de dizer nada. Já tinha beijado raparigas, mas nunca nenhuma que eu gostasse realmente. Parecia difícil fazer com alguém de quem nós gostamos mesmo. Era mais fácil com as outras. Se não lhe ligavas muito ias mais descontraído. Não te preocupavas que algo corresse mal. E, por isso não corria mal. Mas agora era diferente. Eu estava apaixonado por ela. Eu pensava nela todos os minutos, eu respirava, comia e bebia-a nos meus pensamentos. Eu tinha de dizer o que sentia por ela e tinha de saber se ela sentia o mesmo por mim. E o pior é que ela podia dizer que sentia o mesmo por mim e ai vinha o grande problema. E se eu a beijasse mal? E se eu não fosse tão bom namorado como amigo? E se…
Era esse o meu problema. Mas eu estava cada vez mais apaixonado por ela.
Este sentimento aumentava exponencialmente cada dia que passava. Eu tinha de dizer o que passava na minha cabeça. E naquele dia não podia passar. As palavras tinham sido exaustivamente treinadas. Na minha cabeça fui alterando e melhorando o discurso. Ele não podia falhar. O discurso cuidadosamente aperfeiçoado, algumas vezes com palavras tiradas do dicionário, estava pronto.
Após ter ajudado o meu pai (ele tem um restaurante), esperava ouvir os passos da rapariga que eu queria para o resto da vida. Não conseguia ouvir, ou não desceu ou passou numa altura em que o barulho dentro do restaurante era tão grande que nem os meus apaixonados sentidos conseguiam ouvir. Nem das inúmeras vezes que vim à porta pelos supostos passo Vim à porta e olhei para a janela. Ela estava na janela das escadas. Eu decidi – Era agora:
- Olá !
- Olá, Helder.
- Posso falar contigo?
- Podemos falar daqui a um bocadinho.
- Tem de ser agora.
- OK, eu desço.
- Não, eu subo.
Achei que teria mais privacidade falar nas escadas do prédio do que nomeio da rua onde as paredes têm mais do que ouvidos. As ruas de Alfama não permitem que ninguém tenha uma conversa particular.
Subi as escadas num ápice e cheguei num instante ao pé do objecto da minha paixão.
- Entra Helder, para falarmos.
- Não, quero falar contigo aqui fora.
- Diz.
- Já nos conhecemos há algum tempo e desde que te vi pela primeira vez tenho um sentimento que com passar do tempo não desapareceu mas cresceu. Eu, desde o primeiro dia que te vi, gosto de ti. És uma mulher bonita e conhecer-te fez-me agradecer que o Zé Carlos tivesse sido atropelado. Não que ele merecesse, mas assim pude conhecer-te. E pude estar contigo e conhecer-te e ver que és a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. E por isso gosto de ti e queria namorar contigo…
- Helder, eu gosto de ti como amigo. Se eu pudesse escolher, escolhia-te a ti. Mas no Amor não se escolhe. É o coração que escolhe. Por isso peço desculpa, mas não vou aceitar.
- Não faz mal – disse – mas eu tinha de dizer.
Desci as escadas. O meu plano tinha falhado redondamente. O texto que tinha criado não saiu. Nem uma palavra. Tudo aquilo porque tinha treinado foi-se no meio do nervosismo. E ela respondeu que não. O não que eu, no meio do meu medo, esperava mas que não queria.No entanto, não estava chateado, mas contente. Não estava triste, mas feliz. Não estava desapontado mas satisfeito. Tinha dito a alguém que gostava o que sentia. Tinha colocado, mal, mas tinha colocado em palavras o que sentia. E a partir desse dia não precisava de disfarçar perante ela. Sentia-me pela primeira vez um homem. Tinha, pela primeira, vez algo que sempre me pareceu de adulto. Dizer a quem amamos que a amamos.
Rapidamente comecei a reconhecer os seus paços quando descia as escadas, a sua voz no meio da rua. Mesmo a meio da manhã, no meio pregões das varinas, no barulho das crianças, eu sentia o seu andar, o seu respirar. Algumas vezes falhava, alguém conseguia imitar o andar dela, a sua voz, a sua maneira de descer as escadas. Mas noutras vezes acertava. E ela lá estava.
Ela costumava sair com a avó nas suas compras diárias. Alfama é um bairro muito único. Era normal as pessoas fazerem as compras para o próprio dia. Existiam talhos que abriam de terça a sábado às seis da manhã, fechavam às 16 horas.
Um dos mais conhecidos era o talho do Sr. António – Ti’António para mim. E ele nunca foi meu familiar. É apenas uma das formas de tratar as pessoas por quem tenho grande apreço e respeito. Assim, não se trata essas pessoas num distante “Senhor” ou “Senhora” mas num próximo Tio ou Tia. Dessa maneira quer o sujeito quer o destinatário sabia que aquela relação era especial.
Quanto ao peixe a variedade era imensa. Na rua de S. Pedro existiam, pelo menos 15 varinas que vendiam o seu peixe de terça a sábado. A Rua de S. Pedro era também denominada de Rua do Peixe. O cheiro do peixe tinha-se entranhado nas pedras da calçada. Apesar dos serviços da Câmara Municipal de Lisboa lavarem a rua diariamente logo após as varinas encerrarem o seu negócio às 15 horas. Mas o bairro cheirava a peixe, o bairro cheirava a mar. Mas não digo isto como critica ou como sinal depreciativo. Foi o Mar, ou a baia calma, designação fenícia que originou a palavra Lisboa, que fez que o povo tenha escolhido Alfama para viver. Há sua frente tinha uma fonte de alimento e dentro do bairro tinha muitas nascentes de água. Assim, tínhamos tudo o que era preciso para um povo se sedentarizar. Não faltava água nem comida.
Saudades de algo que já não volta.
Era normal a D. Manuela vir à rua fazer as suas compras diárias, agora na companhia daquele anjo.
- Olá Carla, como estás?
- Bem e tu?
Depois vinha a conversa do tempo e ficava sem nada para falar. Na realidade eu não precisava de conversa. Só de a ter ao alcance da minha vista.
Dificilmente eu conseguia ter a Carla na rua. Era uma rapariga de casa, não gostava de estar na rua – Não era de Alfama, onde para nós a rua é mais uma assoalhada da casa.
É normal encontrar as portas das casas abertas. Tal situação é devido a uma razão sócio-arquitéctonica ou arquitectónico-sociológica. As casas em Alfama são muito pequenas e com pouca iluminação. Muitas vezes têm divisões interiores e apenas uma ou duas janelas. Deste modo é normal encontrarmos portas de entrada com janelas e portas abertas. Tal situação vem minorar as duas características dos imóveis em Alfama. Com a porta aberta entra mais iluminação natural para dentro de casa e, por outro lado têm-se a impressão que a casa é maior. Como se a casa se alargasse para a rua e para dentro da casa dos vizinho que têm igualmente a porta aberta.
Talvez por esta arquitectura, pelas pessoas ou pela história. Não podemos esquecer que a arquitectura é de origem árabe onde a introspecção familiar e social é rainha onde as casas são constituídas de acordo com a cultura muito particular. Existe em Alfama uma sociedade diferente do resto da cidade. Todas as pessoas do bairro se conhecem. As notícias correm muito depressa. E, por isso, existe entre os habitantes do bairro uma mistura de Amor e Ódio Familiar. As pessoas adoram-se, mas muitas vezes por questões sem a mínima importância, deixam de se falar, chegando a existir confrontos físicos.
Sendo um bairro tão característico tais individualidades do bairro são visíveis durante os meses quentes e pelo frio são mais dificilmente detectáveis no verão.
Mas finalmente chegou o verão.
No verão as ruas do bairro fervilham de vida. As casas passam a ser moradas para comer e para dormir e as ruas como grandes salas de estar. Como se o bairro fosse uma grande casa, como dizia Ary dos Santos, “um casa sem janelas”. Muitas vezes as pessoas de pisos superiores como não pretendem sair e ter de descer as escadas ficam a janela ou nas pequenas varandas. E era nessa sua varanda que a Carla passava grande parte do tempo. Ela adorava ler e de estar sentada de costas viradas para a rua. Na realidade de costas viradas para o bairro. Como se ele não fosse importante para ela. Vivia fechada no seu mundo onde tudo o resto fosse supérfluo. Nunca ele iria perceber mas é esse o espírito reinante em Alfama. O individualismo, considerando tudo o resto supérfluo. Com uma pequena diferença. O bairro considerava isso não para os seus habitantes mas para os visitantes, considerava supérfluo o resto que não fosse de Alfama. Era apenas um pormenor, mas aquele anjo tinha o espírito de Alfama.
Mas o facto de a ver permitia-me ser um pouco mais feliz e fazia-me ganhar coragem para pedir para ela descer. Certo dia, estava a Carla na varanda e a D. Manuela na janela das escadas com a vizinha do lado. Pensei – Porque não?
- D. Manuela a Carla pode descer?
- Pode, se ela quiser.
Vi um pequeno sorriso na cara da Carla.
- Mas vou descer para quê? - Perguntou a Carla.
-É difícil falar com alguém que está a dois andares a cima. Anda, podemos ir dar uma volta ao bairro.
- Eu conheço o bairro. Não me perco - Respondeu a Carla. Mas apesar da resposta negativa vi um leve esgar no seu rosto a solicitar que eu insistisse. Na realidade, talvez não tenha visto nada pois eu sem óculos vejo mal à distância e nessa altura tinha a mania de não os usar para não parecer feio.
Após alguma insistência e tendo a D. Manuela do meu lado, a Carla desceu. Andámos a passear a tarde toda. Foi uma tarde perfeita, estava a passear em Alfama com a mais bonita mulher que alguma vez tinha visto e, desta vez, ela estava a passear comigo. Pois na minha imaginação já tinha feito aquele passeio com ela, Mas hoje é real.
Tornámo-nos bons amigos e para mim era a mulher da minha vida. Quase todos os dias nós estávamos juntos.
No entanto, ela nada sabia ou desconfiava da minha paixão. Parece que é verdade. Segundo o povo em questões de Amor o visado, neste caso a visada, é sempre a ultima a saber. Via-me como um amigo que podia ter num bairro completamente estranho. Eu sonhava no dia em que pela primeira vez ia dizer a alguém que gostava dela, que queria que fosse minha namorada. Em que pudesse terminar a minha historia amorosa com o famoso “e viveram felizes para sempre”.
Não era a primeira vez que eu gostava de uma rapariga, mas sempre fui muito cobarde e nunca tive coragem de dizer nada. Já tinha beijado raparigas, mas nunca nenhuma que eu gostasse realmente. Parecia difícil fazer com alguém de quem nós gostamos mesmo. Era mais fácil com as outras. Se não lhe ligavas muito ias mais descontraído. Não te preocupavas que algo corresse mal. E, por isso não corria mal. Mas agora era diferente. Eu estava apaixonado por ela. Eu pensava nela todos os minutos, eu respirava, comia e bebia-a nos meus pensamentos. Eu tinha de dizer o que sentia por ela e tinha de saber se ela sentia o mesmo por mim. E o pior é que ela podia dizer que sentia o mesmo por mim e ai vinha o grande problema. E se eu a beijasse mal? E se eu não fosse tão bom namorado como amigo? E se…
Era esse o meu problema. Mas eu estava cada vez mais apaixonado por ela.
Este sentimento aumentava exponencialmente cada dia que passava. Eu tinha de dizer o que passava na minha cabeça. E naquele dia não podia passar. As palavras tinham sido exaustivamente treinadas. Na minha cabeça fui alterando e melhorando o discurso. Ele não podia falhar. O discurso cuidadosamente aperfeiçoado, algumas vezes com palavras tiradas do dicionário, estava pronto.
Após ter ajudado o meu pai (ele tem um restaurante), esperava ouvir os passos da rapariga que eu queria para o resto da vida. Não conseguia ouvir, ou não desceu ou passou numa altura em que o barulho dentro do restaurante era tão grande que nem os meus apaixonados sentidos conseguiam ouvir. Nem das inúmeras vezes que vim à porta pelos supostos passo Vim à porta e olhei para a janela. Ela estava na janela das escadas. Eu decidi – Era agora:
- Olá !
- Olá, Helder.
- Posso falar contigo?
- Podemos falar daqui a um bocadinho.
- Tem de ser agora.
- OK, eu desço.
- Não, eu subo.
Achei que teria mais privacidade falar nas escadas do prédio do que nomeio da rua onde as paredes têm mais do que ouvidos. As ruas de Alfama não permitem que ninguém tenha uma conversa particular.
Subi as escadas num ápice e cheguei num instante ao pé do objecto da minha paixão.
- Entra Helder, para falarmos.
- Não, quero falar contigo aqui fora.
- Diz.
- Já nos conhecemos há algum tempo e desde que te vi pela primeira vez tenho um sentimento que com passar do tempo não desapareceu mas cresceu. Eu, desde o primeiro dia que te vi, gosto de ti. És uma mulher bonita e conhecer-te fez-me agradecer que o Zé Carlos tivesse sido atropelado. Não que ele merecesse, mas assim pude conhecer-te. E pude estar contigo e conhecer-te e ver que és a melhor coisa que podia ter acontecido na minha vida. E por isso gosto de ti e queria namorar contigo…
- Helder, eu gosto de ti como amigo. Se eu pudesse escolher, escolhia-te a ti. Mas no Amor não se escolhe. É o coração que escolhe. Por isso peço desculpa, mas não vou aceitar.
- Não faz mal – disse – mas eu tinha de dizer.
Desci as escadas. O meu plano tinha falhado redondamente. O texto que tinha criado não saiu. Nem uma palavra. Tudo aquilo porque tinha treinado foi-se no meio do nervosismo. E ela respondeu que não. O não que eu, no meio do meu medo, esperava mas que não queria.No entanto, não estava chateado, mas contente. Não estava triste, mas feliz. Não estava desapontado mas satisfeito. Tinha dito a alguém que gostava o que sentia. Tinha colocado, mal, mas tinha colocado em palavras o que sentia. E a partir desse dia não precisava de disfarçar perante ela. Sentia-me pela primeira vez um homem. Tinha, pela primeira, vez algo que sempre me pareceu de adulto. Dizer a quem amamos que a amamos.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
Paixão
A notícia caiu que nem uma tempestade num dia de verão.
O Zé Carlos estava no hospital. Estava em coma. Fora atropelado. Conhecia-o desde pequeno. Não é que agora, com 16 anos, fosse muito grande, mas já me considerava um adulto.
- Mãe, vá perguntar à avó do Zé como ele está?
- Eu pergunto quando ela descer à rua.
A avó do Zé Carlos, a D. Manuela, vivia dois andares por cima do negócio dos meus país. Eu conhecia-a, mas tinha vergonha de subir as escadas para perguntar como estava o meu amigo.
Após perguntar, durante alguns dias, como estava o Zé a minha mãe disse-me:
- Sobe e pergunta. O amigo é teu – Não valeu dizer mais nada. Ela era uma mulher decidida. Fui obrigado a subir para ir perguntar como estava o Zé.
O Zé não era um rapaz de Alfama, vinha para o Bairro quando estava de férias. A casa da avó era a morada de grande parte de muitos rapazes de Alfama. Os pais tinham e têm apenas um mês de férias e os filhos tinham três meses. Assim, dois terços das férias eram passados na casa dos avós. Grande parte dos meus amigos, nessa altura, imigrantes em Alfama. Crianças que quando cresceram não precisaram de voltar ao Bairro e afastámo-nos para sempre.
Toquei à campainha. Uma voz no interior disse:
- Eu vou lá.
A porta abriu. Um anjo abriu a porta. Um anjo de pele morena, cabelo comprido, liso, castanho-escuro, com calções azuis, curtinhos, camisa amarela, com dois limões estampados, um inteiro e outro cortado ao meio.
Aqueles dois olhos castanhos fitaram-me.
- Olá, como estás? – Não sei como, conhecia-me.
- Bem – respondi.
- Viste saber do Zé Carlos? – Ela conseguia ler o meu pensamento. Não o imediato, pois este estava deslumbrado por tamanha beleza e não conseguia pensar. Mas conseguia saber o que fui fazer ali.
- Entra e senta-te.
Mais rápido que o pensamento, sentei-me e comecei a falar com aquele anjo.
- Carla, quem é? – perguntou a D. Manuela.
- É o Helder. Veio perguntar sobre o Zé. – Ela sabia o meu nome. Aquela anjo sabia o meu nome.
D. Manuela veio da cozinha e pergunta-me:
- Então Helder tudo bem?
- Sim. – respondi sem tirar os olhos daquela beleza que me tinha aberto a porta.
- Vieste saber do Zé?
Qual Zé? - Foi o meu pensamento inicial, mas logo cai na realidade.
- O Zé está melhor? – Perguntei.
- Sim. Ele já saiu do coma e para a semana vem para casa.
A partir desse dia fui perguntar como estava o Zé todos os dias, para poder voltar a falar com aquele anjo.
Nesse dia quando desci as escadas todo o meu corpo sorria. Estava feliz, mas não pela recuperação do meu amigo. Estava apaixonado.
Continua…
Qualquer relação entre esta história e a realidade não é pura coincidência…
O Zé Carlos estava no hospital. Estava em coma. Fora atropelado. Conhecia-o desde pequeno. Não é que agora, com 16 anos, fosse muito grande, mas já me considerava um adulto.
- Mãe, vá perguntar à avó do Zé como ele está?
- Eu pergunto quando ela descer à rua.
A avó do Zé Carlos, a D. Manuela, vivia dois andares por cima do negócio dos meus país. Eu conhecia-a, mas tinha vergonha de subir as escadas para perguntar como estava o meu amigo.
Após perguntar, durante alguns dias, como estava o Zé a minha mãe disse-me:
- Sobe e pergunta. O amigo é teu – Não valeu dizer mais nada. Ela era uma mulher decidida. Fui obrigado a subir para ir perguntar como estava o Zé.
O Zé não era um rapaz de Alfama, vinha para o Bairro quando estava de férias. A casa da avó era a morada de grande parte de muitos rapazes de Alfama. Os pais tinham e têm apenas um mês de férias e os filhos tinham três meses. Assim, dois terços das férias eram passados na casa dos avós. Grande parte dos meus amigos, nessa altura, imigrantes em Alfama. Crianças que quando cresceram não precisaram de voltar ao Bairro e afastámo-nos para sempre.
Toquei à campainha. Uma voz no interior disse:
- Eu vou lá.
A porta abriu. Um anjo abriu a porta. Um anjo de pele morena, cabelo comprido, liso, castanho-escuro, com calções azuis, curtinhos, camisa amarela, com dois limões estampados, um inteiro e outro cortado ao meio.
Aqueles dois olhos castanhos fitaram-me.
- Olá, como estás? – Não sei como, conhecia-me.
- Bem – respondi.
- Viste saber do Zé Carlos? – Ela conseguia ler o meu pensamento. Não o imediato, pois este estava deslumbrado por tamanha beleza e não conseguia pensar. Mas conseguia saber o que fui fazer ali.
- Entra e senta-te.
Mais rápido que o pensamento, sentei-me e comecei a falar com aquele anjo.
- Carla, quem é? – perguntou a D. Manuela.
- É o Helder. Veio perguntar sobre o Zé. – Ela sabia o meu nome. Aquela anjo sabia o meu nome.
D. Manuela veio da cozinha e pergunta-me:
- Então Helder tudo bem?
- Sim. – respondi sem tirar os olhos daquela beleza que me tinha aberto a porta.
- Vieste saber do Zé?
Qual Zé? - Foi o meu pensamento inicial, mas logo cai na realidade.
- O Zé está melhor? – Perguntei.
- Sim. Ele já saiu do coma e para a semana vem para casa.
A partir desse dia fui perguntar como estava o Zé todos os dias, para poder voltar a falar com aquele anjo.
Nesse dia quando desci as escadas todo o meu corpo sorria. Estava feliz, mas não pela recuperação do meu amigo. Estava apaixonado.
Continua…
Qualquer relação entre esta história e a realidade não é pura coincidência…
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